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Instrução Normativa preocupa produtores de leite 18.12.2005 Os produtores do Centro-sul têm até o final deste ano pra se adaptar às novas exigências do programa de qualidade do leite. Elas estão previstas na Instrução Normativa 51, que o Ministério da Agricultura publicou em 2002. Os produtores do Centro-sul têm até o final deste ano pra se adaptar às novas exigências do programa de qualidade do leite. Elas estão previstas na Instrução Normativa 51, que o Ministério da Agricultura publicou em 2002. A produtora Maria Angélica Santos, que é produtora de leite em São Bento Abade, Minas, escreveu para o Globo Rural, preocupada porque acha que não vai conseguir atender a essas exigências. O repórter Vico Iasi foi até Minas, pra conversar com ela e com outros criadores.
A Instrução Normativa 51 foi criada para melhorar a qualidade do leite produzido no Brasil. Ela estabelece critérios de higiene, de manejo sanitário, de armazenamento e transporte do leite. São páginas e mais páginas de exigências.
Pelas novas regras, o leite de cada sítio será avaliado regularmente em laboratórios credenciados. Quem não se adaptar, pode ficar fora do mercado.
Em São Bento do Abade, no sul de Minas, é terra de pequenos produtores de leite, como a dona Maria Angélica, que escreveu para o programa.
"A gente está muito preocupado com o problema do leite", diz ela na chegada da equipe.
Maria Angélica e seu marido Márcio explicam que a família sempre viveu do leite. É tradição que veio dos pais, avós, bisavós. Hoje, no sítio de oitenta hectares, eles plantam capim pra fazer silagem, mantêm roça de mandioca, criação de galinha e porco pro gasto.
O casal conta que tem cinqüenta vacas no sítio. Trinta estão em lactação e são todas mestiças. Com duas ordenhas, de manhã e à tarde.
O casal produz trezentos litros de leite por dia. Com ordenhadeira mecânica, o produto é bombeado até o latão. Maria Angélica desinfeta as tetas das vacas, Márcio faz o teste da caneca, pra controle da mamite.
De olho nas novas exigências, o casal planeja melhorias no estábulo: pintar paredes, colocar azulejo, portas, fazer canaletas pra melhorar o escoamento, e piso de cimento no curral, pra evitar sujeira na sala de ordenha. O problema é que tudo esbarra na mesma limitação: o preço baixo do leite.
"De onde vamos tirar esse dinheiro para investir ou, se a gente pegar um financiamento, como vamos chegar no ano que vem e ter esse dinheiro para pagar se o leite não melhorar de preço. Não tenho confiança", diz ela.
No ano passado, os criadores da região chegaram a receber 50 centavos pelo litro de leite. Hoje, o preço caiu pra 35 centavos.
Maria Angélica e Márcio também adiaram o principal investimento: a compra de um tanque de expansão, que armazena o leite a granel. Só assim, o casal poderia abandonar o latão, que hoje é resfriado em água gelada.
"O tanque garante uma melhor qualidade, porque ele esfria mais rapidamente o leite, evitando que dê alguma bactéria. Esse tanque custa em torno de 12 mil um tanque de mil litros".
É importante lembrar que a Normativa 51 não proíbe o uso do latão, mas dificulta. No sítio de Maria Angélica o leite é coletado em caminhões refrigerados. Pelas novas regras, o produto também poderá ser entregue em latão, desde que chegue ao laticínio em no máximo duas horas depois da ordenha.
O que vai realmente definir se o leite pode ser vendido é o teste de laboratório, que será baseado em amostras mensais recolhidas em cada propriedade. Leite com alto teor de bactérias e células somáticas poderá reprovado, assim como o produto pobre em gorduras e proteínas.
Por enquanto, o laticínio só recolhe amostras no sítio do casal pra avaliar o teor de gordura do leite. Maria Angélica está preocupada com o futuro.
"Amostra desse leite ainda não foi levada pra laboratórios credenciados. Lógico que a gente tem medo, se for para o laboratório e os testes não indicam uma boa qualidade, a gente fica sem certeza do futuro”, teme a produtora.
O caso desta família é muito comum pelo Brasil afora. Grande parte dos produtores não conhece as regras da normativa e, por isso, não sabe se vai estar fora dos novos padrões. Pior: tem gente com medo de multas, punições, medo até de ser excluído da atividade.
O laticínio da região compra leite de 150 produtores. A maior parte é de pequenos sitiantes como explica a gerente Cristiane Rodrigues.
"O que preocupa a gente é que vai causar um impacto muito grande. Muitos produtores vão ter que parar de tirar o leite, porque não vão ter como se adequar. A partir daí, vamos diminuir nossa produção e mandar alguns empregados embora, diminuir o quadro."
Segundo o laticínio, muitos produtores daregião enfrentam situação ainda mais difícil do que a da dona Maria Angélica.
Seu Zézinho Costa tira leite desde criança. Aos 67 anos, vive da aposentadoria rural e da ordenha de sete vaquinhas mestiças. Tudo feito na maior simplicidade.
Quando perguntado se já ouviu falar em Instrução Normativa 51: "Não. Não conheço, não. Já ouvi falar já pra arrumar bem o curral, tudo pra pegar bem os tanques, mas fica caro. Fica mais de vinte milhões pra arrumar um curral. Acho que criar bezerro não vai dar mais."
Todo dia, depois da ordenha, seu Zézinho empurra o latão até a estrada, onde passa o caminhão. Sem informação, nem assistência, nem tecnologia, ele está muito distante tão sonhada modernização do setor. O que vai ser de produtores como ele? E pra família de dona Maria Angélica a instrução normativa vai ser uma evolução ou uma sentença?
A repórter Rita Yoshimine, de Brasília, foi saber o que diz o governo federal. Ela conversou com o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.
Globo Rural: Ministro, o que o senhor pode dizer pra essa produtora de leite a respeito da Instrução Normativa 51?
Roberto Rodrigues: Dona Maria Angélica, é um prazer falar com a senhora. Eu tenho conversado com muita gente como a senhora com preocupações em relação ao leite. Nossos técnicos agora estão fazendo uma avaliação desses seis meses de funcionamento prévio da IN 51 pra ver em que regioes do país existem ainda problemas que precisam ser avaliados e corrigidos. Então nessa crise de preço com dificuldade de investimento nós precisamos encontrar uma saída e eu espero que já no começo de 2006.
O Ministério da Agricultura ainda não definiu prazos ou critérios de punição pra quem não cumprir as regras da Instrução Normativa. Técnicos estudam a possibilidade de aumentar o prazo de adaptação em algumas regiões do Centro-sul.
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